Meio Ambiente
VÔO CERTO.
Saiba como proceder corretamente as principais operações.
Eugênio Passos Schroder, Eng. Agrônomo, Dr. Consultor em Tecnologia de Aplicação.
Existe uma imprescindível relação entre a cultura do arroz e a aviação agrícola brasileira, as quais vêm crescendo conjunta e evolutivamente ao longo das últimas décadas. Para que a produtividade da cultura atingisse os atuais patamares superiores a seis toneladas por hectare foi essencial a tecnologia disponibilizada por empresas aeroagrícolas para o controle eficiente de pragas no momento oportuno. O setor aeroagrícola alcançou a cifra de 250 empresas e frota de aproximadamente 1000 aeronaves graças aos orizicultores que, junto a produtores de outras culturas, vêm adotando a tecnologia sistematicamente. A orizicultura é a terceira maior usuária dos serviços de aviação agrícola no Brasil, com destaque para as regiões sul e centro-oeste, com área aplicada de quase três milhões de hectares anuais, destacando-se os tratamentos com herbicidas e adubação, seguidos pelas pulverizações de Fungicidas e inseticidas.
Aplicações Terrestres Versus Aéreas
Freqüentemente, somos consultados por técnicos e agricultores sobre qual a melhor tecnologia para aplicação de agroquímicos. As aplicações aéreas e terrestres não são necessariamente concorrentes, mas sim, complementares em muitos casos. Cada uma apresenta características próprias, tanto do ponto de vista técnico quanto operacional, e o seu conhecimento é fundamental para a tomada de decisão de quando adotar uma ou outra tecnologia. As pulverizações aéreas não podem ser efetuadas junto a cidades, nem em áreas perigosas sob determinadas redes elétricas, requerendo a adoção de equipamentos terrestres. Por outro lado, o trânsito de pulverizadores terrestres fica por vezes limitado pelo excesso de umidade no solo; noutras ocasiões, a rápida disseminação de uma praga exige combate rápido na lavoura; são situações que fazem o agricultor, mesmo dispondo de equipamentos terrestres próprios, contratar o serviço de uma empresa de aviação agrícola. O sistema de irrigação por inundação no sul do país, com sua rede de canais e taipas, limita o trânsito de equipamentos terrestres nas lavouras de arroz, incrementando o uso de aeronaves agrícolas. A topografia plana da maioria das áreas e a presença de pistas de pouso nas propriedades agrícolas são fatores que contribuem para as aplicações aéreas.
Aplicações Aéreas
Os agricultores que utilizam aplicações aéreas consideram que rapidez e precisão destacam-se entre as vantagens desta tecnologia, pois, mais de 100 ha podem ser tratados em apenas uma hora de trabalho, inclusive após uma chuva que impediria o uso de equipamentos terrestres devido ao excesso de umidade do terreno. A precisão é assegurada pela adequada calibração da aeronave, monitorada constantemente pelo piloto através de equipamentos instalados no painel a sua frente, como manômetros, cronômetro e sistema de balizamento orientado por sinais de satélite (DGPS). A terceirização do serviço é uma característica muito vantajosa para o agricultor, que não precisa imobilizar recursos com a aquisição de equipamentos e contratação de mão-de-obra, disponibilizando seu capital para outros segmentos da área produtiva. O serviço da aviação agrícola é contratado de acordo com a necessidade do orizicultor, que paga apenas pelas aplicações realizadas em sua propriedade.
Preço das Aplicações Aéreas
O fato de só ocorrer desembolso quando realmente necessário contratar o serviço, aliado à possibilidade de buscar ferramentas que diminuam este valor, torna o preço da aplicação aérea muito acessível ao orizicultor. Entre elas, destaca-se a livre concorrência entre as empresas prestadoras de serviço, possibilitando ao agricultor eleger aquela que ofereça serviço de alta qualidade por valores compatíveis com o mercado. Porém, deve ser evitada a busca sem critérios por preços mais baixos, que por vezes podem levar à contratação de aplicadores menos capacitados. Mas é a busca pelo incremento do rendimento operacional que deve nortear a ação do administrador rural para reduzir o preço dos tratamentos aéreos em suas lavouras. O custo da hora de vôo agrícola é fixo para cada empresa aplicadora, de modo que o valor da unidade de área a ser tratada pode ser reduzido sensivelmente se forem cobertos mais hectares a cada hora, incrementando a produtividade das aplicações. A orientação prestada a orizicultores e agrônomos, envolvidos com assistência técnica, visa maximizar a produtividade das aplicações, através da redução no volume de calda aplicada por hectare, distância entre pista de pouso e lavouras, cargas maiores devido à boa conservação da pista de operação, conformação das lavouras, maior largura de faixa tratada a cada vôo sobre a lavoura e carregamento mecanizado, através de um adequado planejamento prévio pela empresa de prestação de serviço, junto com agricultor.
Máquina Versátil
Aplicações tanto por via sólida quanto por via líquida são os serviços disponibilizados aos produtores de arroz. No caso dos sólidos, destaca-se a semeadura aérea de arroz, com sementes secas ou pré-germinadas, prática muito utilizada no exterior e também no Brasil, com excelente rapidez e uniformidade de distribuição do insumo. A implantação de pastagens por via aérea, em sucessão à cultura do arroz, é uma técnica que poderá ser realizada logo após a colheita do cereal, ou pouco antes desta, prática denominada de sobresemeadura. Outra aplicação por via sólida é a adubação aérea em cobertura, geralmente com fertilizantes nitrogenados como a uréia. Há ainda a possibilidade de aplicarem-se defensivos granulados, como o inseticida carbofuran, isolados ou associados ao fertilizante nitrogenado. As aplicações de defensivos, via de regra, são efetuadas por via líquida, através do processo de pulverização, que é a transformação da calda do pesticida em gotas a serem distribuídas uniformemente na lavoura. Os produtos mais empregados na cultura do arroz são os herbicidas, desde a dessecação para semeadura direta até as aplicações de pré e pós-emergência tradicionais, visando manter as populações de plantas daninhas em níveis baixos. Inseticidas e fungicidas para controle de insetos e doenças que reduzem a produtividade da cultura também são muito utilizados em aplicações aéreas, isoladamente ou associados entre si. As pulverizações serão abordadas detalhadamente a seguir.
Aplicações Simutâneas
Deve-se atentar para a compatibilidade dos defensivos quando aplicados simultânea ou seqüencialmente, especialmente para os casos tradicionais como o herbicida propanil e inseticidas carbamatos e fosforados. Nestas aplicações utilizam-se dois ou mais produtos visando controlar mais de um problema fitossanitário. São freqüentes as adições de inseticidas junto às pulverizações de herbicidas para controlar a lagarta-da-folha do arroz (Spodoptera frugiperda), a qual mostra preferência alimentar pela planta daninha capim-arroz (Echinochloa crusgalli), em detrimento das plantas da cultura. Quando as invasoras são controladas, os insetos migram para as plantas do arroz, causando grandes prejuízos, os quais podem ser evitados pelo uso concomitante de inseticida na pulverização. Situação similar ocorre com os adultos do gorgulho aquático que originarão as larvas da bicheira-da-raiz (Oryzophagus orvzae), que causa reduções consideráveis na produtividade. Seu controle pode ser iniciado precocemente, através da adição de inseticida na calda de pulverização dos herbicidas. O controle simultâneo de doenças como a bruzone (Pvricularia grisen) e insetos como os percevejos sugadores também são viáveis pela aplicação conjunta de fungicida e inseticida. Produtos sólidos também podem ser utilizados na mesma aplicação, como é o caso de inseticidas granulados e fertilizantes, para controle de praga e adubação em cobertura da lavoura. A mistura prévia homogênea dos insumos é um requisito muito importante para obter-se uniformidade na distribuição dos produtos ao longo da área.
Em busca do Alvo Biológico
No caso de herbicidas, o alvo biológico são as próprias plantas daninhas ou o solo a ser tratado, conforme a aplicação ocorra em pós ou em pré-emergência. Nas pulverizações de inseticidas são visados os insetos e/ ou as plantas da cultura, enquanto no caso de fungicidas deseja-se atingir as plantas de arroz, a fim de protegê-las do ataque de patógenos. O profundo conhecimento dos problemas fitossanitários é imprescindível para obter êxito no seu controle. Identificar corretamente a espécie e conhecer sua biologia, bem como sua suscetibilidade aos defensivos, pode evitar o insucesso nas aplicações de produtos químicos. A identificação incorreta de pragas tem gerado eventuais questionamentos de controle inadequado, por parte de agricultores, o que é esclarecido em uma visita na lavoura, ocasião em que um aprofundado estudo deve ser realizado, buscando medidas para complementar o combate à praga. Ajustes nos equipamentos são procedidos antes e durante as aplicações para assegurar que o produto químico seja depositado em quantidade apropriada no alvo biológico, evitando-se as subdosagens e os acúmulos de pesticidas sobre as plantas e solo.
Cuidado com as Condições Ambientais
O êxito das pulverizações aéreas é muito dependente das condições ambientais. Temperatura e umidade relativa do ar afetam a evaporação das gotas aspergidas, recomendando-se evitar operações com temperaturas superiores a 30°C e umidade inferior a 55%. Pesquisas com pulverização de água com aeronave Ipanema mostraram que a quantidade de gotas coletadas sobre o alvo biológico variou com as condições ambientais, confirmando a perda de gotas por evaporação. A velocidade do vento influi diretamente sobre a deriva de gotas, que é o arraste lateral, e que pode causar grandes prejuízos se atingirem áreas indesejadas, contaminando mananciais hídricos, solo, pessoas e causando fitotoxidade a plantas sensíveis. O ideal é que as aplicações aéreas sejam realizadas com ventos entre 3 e 10 km/h, pois o vento nulo favorece a formação de correntes ascendentes e velocidades superiores a 10 km/h oferecem maior risco de deriva. Porém, em regiões litorâneas é muito freqüente a necessidade de operar com ventos mais intensos, limitando-se à recomendação na velocidade de 15 km/h. Ventos com rajada são altamente condenáveis. Estudo mostrou que o vento é o fator mais limitante para as condições da região de Pelotas, RS, onde se encontra em velocidades inferiores a 10 km/h apenas entre 2 e 3 horas pela manhã e menos de uma hora à tarde, exigindo operações com ventos de maior intensidade. Em debates sobre tecnologia de aplicação, é freqüente ouvirmos prescrições de horários ideais para as operações. A programação das pulverizações baseadas apenas em dados médios diários não é recomendada. O procedimento correto é o monitoramento dos fatores pelos operadores durante as pulverizações aéreas, utilizando-se de anemômetros e termohigrômetros portáteis, realizando os ajustes necessários no equipamento de aplicação e interrompendo o serviço quando as condições tornaremse limitantes.
Um pouco de teoria: Densidade de Gotas
A cobertura das plantas pela pulverização deve ser uniforme e com uma quantidade de gotas que propicie uma distribuição por todo o alvo visado, atendendo à necessidade de cobertura preconizada pelo fabricante de cada defensivo. A densidade de gotas é determinada pelo número de gotas por centímetro quadrado, e varia com o volume aplicado, regulagem dos bicos, tipo de formulação do agroquímico, entre outros fatores. A maioria das pulverizações aéreas caracteriza-se por gerar gotas com diâmetro inferior a 300 micrometros (mm), ou seja, 0,3 milímetros, o que propicia que se depositem densidades entre 20 e 30 gotas/cm2 empregando-se volumes de calda inferiores a 30 L/ha, fator que as diferem substancialmente das pulverizações com equipamentos terrestres. A formulação do defensivo pode influenciar no tamanho e quantidade das gotas geradas pelos bicos de pulverização. Pesquisa avaliando o efeito de herbicidas na geração de gotas, em pulverização de calda em volume de 30 L/ha em arroz, mostrou que o herbicida propanil gerou maior densidade de gotas, provavelmente por ter fracionado a calda em gotas menores. O tamanho de gotas requerido para promover a cobertura necessária para cada situação pode ser obtido pelo ajuste dos bicos de pulverização. Assim, para um mesmo tipo de bico, volume de aplicação e pressão de trabalho, podem-se obter densidades diferentes e, inclusive, alterá-las ao longo do trabalho para atender o comportamento das condições climáticas, garantindo a boa deposição do defensivo sobre o alvo biológico. Para o caso de bicos hidráulicos convencionais, o simples giro de sua posição num ângulo de 45 graus à frente ou para trás modifica a densidade de gotas que atinge o solo.
Volume de Aplicação
Um dos assuntos que demandam maior debate nas pulverizações aéreas é o volume de aplicação, até porque existe o hábito de comparar com o volume utilizado nas terrestres, o que é um contra-senso, pois utilizam diferentes bicos, altura de barra ao alvo, pressão de pulverização, velocidade, etc. Ainda existe, por parte de profissionais e agricultores, a idéia de que quanto mais água melhor, ou seja, que maiores volumes de calda resultam em melhor controle dos problemas fitossanitários. Isto não é verdade. É certo que maiores volumes podem resultar em melhor cobertura das plantas, mas também podem proporcionar maior escorrimento e perdas de insumo para o solo quando se utilizam gotas grandes, bem como grande formação de micro-gotas quando o volume é incrementado via aumento de pressão de pulverização, o que resulta em enormes perdas por evaporação e deriva, com sérios riscos de contaminação ambiental. Além disso, altos volumes de pulverização exigem mais carregamentos da aeronave, maior número de pousos e decolagens, translados entre pista e lavoura, gasto de água, o que resulta em elevado custo de tratamento. Tal prática não se enquadra na moderna visão administrativa, onde o objetivo é buscar tratamentos mais baratos, eficientes e seguros. A tendência mundial em aviação agrícola é o uso de volumes cada vez menores. Trabalhos apresentados em congressos em todo o mundo e o desenvolvimento de novos equipamentos de pulverização aérea caminham todos neste sentido. Hoje não são utilizados no Brasil volumes superiores a 30 litros de calda por hectare e, no futuro próximo, raramente serão pulverizados mais do que apenas 10 litros.
Deriva e Evaporação: As vilãs
O tema deriva, já abordado anteriormente, requer cuidados tanto nas pulverizações aéreas quanto nas terrestres. Não se pode conceber que as aplicações com pulverizadores não estão sujeitas aos efeitos da deriva. Em caso de eventual dano numa determinada área, torna-se necessário um criterioso estudo da situação para determinar se o problema realmente foi devido à deriva de pulverização vizinha e, neste caso, de qual pulverização realizada na região. Outro fator muito importante a considerar é a possibilidade de evaporação de parte do defensivo aplicado, depois do trabalho concluído, em função de características do próprio ingrediente ativo e do ambiente. Não são raros os casos de evaporação de herbicidas como clomazone e molinate, horas depois de pulverizados em lavouras de arroz, os quais deslocam-se pelo ar causando sintomas de branqueamento de plantas sensíveis e cheiro forte, respectivamente por vezes, no planejamento foi levado em conta o sentido do vento no momento da aplicação, mas horas depois, ou mesmo no dia seguinte, o sentido do vento se altera e parte do herbicida evaporado é conduzido em direção a plantas sensíveis e moradias. Estudos sobre deriva de herbicidas dessecantes em áreas de semeadura direta de arroz têm indicado que plantas sensíveis podem ter sua produtividade comprometida seriamente quando a quantidade de ingrediente ativo arrastado é substancial. A prática tem demonstrado que plantas de arroz que recebem derivas em doses muito baixas recuperam-se rapidamente dos sintomas e podem produzir grãos normalmente, o que não é observado quando a lavoura está sob estresse e/ou a deriva foi muito severa. FERRElRA et al. observaram que plantas de arroz recuperaram-se da fitotoxidade de glifosate a partir da segunda semana de exposição quando as concentrações eram de até 150 g i.a./ha, mas os danos evoluíram com o passar do tempo nos casos de doses superiores.
Largura de Faixa
Pesquisas denominadas testes de deposição, conduzidas segundo metodologia científica, visam determinnar a máxima largura de faixa que pode ser tratada, com boa uniformidade, a cada vôo da aeronave sobre a lavoura. Aplicações com larguras menores que o recomendado geram sobreposição de faixas, incrementando o custo do tratamento, ocasionando contaminação e fitotoxidade à cultura. Por outro lado, faixas maiores que as preconizadas resultam em áreas com subdosagem, ineficiente controle das pragas, exigindo repetir a aplicação, com ônus financeiro e ambiental. A largura de faixa pode variar de acordo com a aeronave, bicos, produto e condições do vento durante a puiverização, de modo que o piloto programará o sistema de balizamento orientado por satélite para operar do modo mais conveniente, a fim obter êxito na pulverização.
Balizamento é fundamental
O balizamento das aplicações aéreas era realizado por balizamentos humanos, no solo, dentro das lavouras, sinalizando ao piloto com bandeiras de pano onde deveria sobrevoar a área. O método era pouco preciso e expunha os balizadores a riscos. Desde 1995 o Brasil passou a adotar o balizamento orientado por sinais de satélite (Sistema de posicionamento global diferencial - DGPS), que hoje equipa praticamente toda a frota aeroagrícola. O sistema é muito eficiente, apresenta precisão submétrica e, em alguns casos, é possível armazenar os dados no computador da aeronave e posteriormente imprimir um mapa para avaliação da qualidade da aplicação pelo piloto e agricultor. Eventuais falhas podem ser corrigidas em novo vôo orientando-se pelas coordenadas dos locais a tratar. Já estão sendo utilizados em pulverizações nas lavouras de arroz dispositivos para correção de precisão da vazão ao longo de cada vôo sobre a área, em função de alteração de velocidade da aeronave. São os fluxômetros, que utilizam a velocidade real da aeronave informada pelo equipamento DGPS, para corrigir automaticamente a vazão aspergida em cada local da lavoura, de modo a assegurar uniformidade de distribuição do defensivo.
Planejamento das Aplicações
Para tornar as operações mais eficientes e seguras, o planejamento das aplicações aéreas, além de ser uma exigência legal, deve ser realizado conjuntamente entre a empresa aplicadora e o contratante do serviço. Aspectos relacionados à segurança de vôo, como operação na pista de pouso e presença de obstáculos perigosos à aeronave, como as redes elétricas nas proximidades e interior das lavouras, precisam ser de conhecimento de todos e estarem devidamente mapeados. A determinação do tamanho de cada carga, volume de aplicação, largura de faixa e dosagens dos defensivos devem atender os critérios de segurança e receituário agronômico, o qual deve estar disponível nas pistas. As aplicações aéreas requerem cuidados redobrados, pois eventuais erros podem comprometer extensas áreas de lavoura, ocasionando custo muito elevado. Existem distâncias regulamentadas que proíbem as pulverizações de defensivos em determinadas situações, como 500 metros de cidades e 250 metros de moradias isoladas. O tipo de aeronave e equipamento pulverizador instalado definem a altura de vôo, de modo que, a cada vôo sobre a lavoura, seja tratada com uniformidade a maior largura de faixa possível. Vôos excessivamente altos exigem uma trajetória muito grande entre os bicos e o alvo biológico, ocorrendo perda de gotas. Entretanto, o vôo muito baixo é extremamente desaconselhável, porque impede que as gotas distribuam-se na forma de uma esteira uniforme após a passagem da aeronave pela área visada, causando concentração de produto no centro da faixa e o que é pior, movimento ascendente de gotas, que ficam então sujeitas à evaporação e deriva. Vôos excessivamente baixos comprometem a segurança operacional. Temos acompanhado a campo muitos pilotos agrícolas em operação segura, com altura de vôo adequada, os quais são por vezes induzidos pelo agricultor ou técnico a manter vôos excessivamente baixos. A altura média recomendada é de 2 metros para o sistema eletrostático, 2 a 3 metros para barra com bicos hidráulicos e de 3 a 4 metros quando se utilizam atomizadores rotativos.
Prepare a calda com cuidado
O preparo das caldas de defensivos deve ser realizado em tanque de pré-mistura, agitando-se vigorosamente os produtos com água através de moto-bomba, juntamente com a água de enxágüe das embalagens vazias. A operação é realizada enquanto a aeronave está aplicando uma carga para, ao chegar no aeródromo, ser rapidamente carregada, tornando o serviço bastante dinâmico. A equipe de apoio de solo deve ter em mente que a operação deve ocorrer como um "pit stop" de corridas de automóveis, onde o trabalho deve ser desenvolvido com rapidez, precisão e segurança. Água de qualidade é fundamental para uma boa aplicação. Os fabricantes formulam os defensivos para serem misturados com água livre de impurezas e problemas de dureza e alcalinidade. Disponibilizar água nos aeródromos requer a construção de poços e canais ou o transporte em tanques limpos. Estudos têm revelado que água com partículas de argila e matéria orgânica reduzem a atividade dos defensivos, exigindo aumentos significativos na dosagem para controlar as pragas, o que incrementa o impacto ambiental e custo das aplicações.
Instrumento Certo
Para cada tipo de produto a ser aplicado existe um equipamento específico que deve ser acoplado ao avião. Para cada um deles é necessário realizar uma regulagem específica, de forma que a aplicação seja eficiente.
Aplicação Sólida
Os difusores de sólidos têm por finalidade distribuir os grânulos e sementes homogeneamente nas lavouras. São instalados sob a aeronave e os insumos que saem do tanque de produtos por gravidade são dirigidos para estes dispositivos, onde recebem energia cinética devido ao vento relativo do deslocamento do avião agrícola, promovendo a abertura de faixas de deposição largas e uniformes. Os três modelos de difusores empregados em aplicações na cultura do arroz no Brasil são o venturi convencional, tetraédrico e swathmaster. Todos promovem aplicações excelentes e a seleção de um deles é função de fatores administrativos da empresa aplicadora. Estudos recentes têm confirmado que o difusor swathmaster gera faixas mais largas e uniformes, com menor probabilidade de "riscar" as lavouras, promovendo uma melhor distribuição dos insumos, quando comparado com o venturi convencional, que tende a concentrar maior quantidade de grânulos no centro da faixa tratada. O carregamento de sólidos é feito pela abertura superior do tanque de produtos do avião agrícola e, para conferir agilidade à aplicação, recomenda-se fazê-lo de forma mecanizada. No caso de aplicação simultânea de uréia e inseticida granulado em arroz, a mistura prévia e homogênea é obrigatória, devendo-se atentar para a não exposição dos operários ao defensivo.
Equipamentos para aplicações líquidas
A calda de agroquímicos precisa ser transformada em gotas para uma adequada distribuição dos insumos nas lavouras. A este processo denomina-se pulverização e os dispositivos responsáveis por esta função são os bicos de pulverização e os atomizadores rotativos. Os bicos atuam por energia hidráulica proveniente da bomba de pulverização, sendo mais empregados os que utilizam pontas e difusores para formar um jato tipo cônico e os bicos com discos ajustáveis para regular vazão e tamanho de gotas em jatos com forma plana. Os volumes de aplicação empregados situam-se, na maioria dos casos, entre 20 e 30 L/ha. Os atomizadores rotativos também são muito utilizados para pulverizações aéreas em arroz, principalmente para inseticidas e fungicidas. O equipamento possui tambor de tela que gira a altíssima velocidade, fracionando o líquido em gotas. O volume de calda situa-se entre 10 e 20 L/ha e o espectro de gotas gerado é muito uniforme, atendendo requisitos da tecnologia de aplicação de agroquímicos. Modernamente, estão sendo empregados atomizadores desenvolvidos para atender o mercado de herbicidas, que produzem gotas maiores, devido à substituição do tambor de tela por um conjunto de discos ranhurados. Outro sistema inédito, já em uso no arroz, é o baixo volume oleoso. A tecnologia emprega atomizadores rotativos especialmente projetados e a calda dos defensivos é feita com diluição em óleo degomado. As gotas geradas são muito pequenas, mas não sofrem evaporação como as de água, tendo "vida mais longa", ideais para situações de baixa umidade relativa do ar. O sistema tem sido utilizado na cultura do arroz pulverizando volumes de apenas 8, 7 e 3 litros de calda oleosa a cada hectare, para herbicidas, fungicidas e inseticidas, respectivamente.
Pulverização Eletrostática
O sistema de pulverização eletrostática aérea utiliza bicos hidráulicos que geram gotas de pequeno diâmetro (150 mm), as quais, logo depois de formadas, são expostas a um potente campo elétrico ao redor dos bicos, tomando-se carregadas. O processo faz com que as gotas sejam fortemente atraídas pelas plantas da cultura, incrementando a deposição. Pulverizações na cultura do arroz irrigado no Rio Grande do Sul ao longo de três safras agrícolas, tanto com herbicidas, como inseticidas e fungicidas, comprovam a eficiência do sistema. O volume de calda foi reduzido dos tradicionais 30 L/ha para apenas 10 L/ha, aumentando a produtividade das aplicações. As características do equipamento e os principais resultados de pesquisas no exterior estão descritos no livro "Pulverização eletrostática aérea: Experiência e perspectivas no Brasil", que editamos recentemente, o qual aborda também as principais recomendações a serem seguidas neste sistema de aplicação. Em nossa tese de doutoramento, comprovamos que, para uma mesma dosagem do herbicida glifosate, em área de semeadura direta de arroz, o controle das plantas daninhas mostrou-se superior que o proporcionado por bicos tradicionais.
Adequado Manejo da Irrigação
As aplicações realizadas na cultura do arroz irrigado estão, na maioria das vezes, na dependência do adequado manejo da irrigação para tornarem-se eficientes. Adubações com uréia só trarão a resposta em produtividade esperada se a circulação da água na lavoura seguir a recomendação da assistência técnica, evitando-se movimentação excessiva na lavoura após a aplicação, e não permitindo escapes da irrigação, que carregariam o nutriente. No caso de herbicidas, a inundação auxilia na complementação do controle das plantas daninhas por submersão, impedindo a reinfestação. Vazamentos de água com defensivos, para fora da área tratada, podem constituir perigosa fonte de poluição, o que requer cuidados constantes nos dias seguintes à pulverização.
Preservar sempre o Meio Ambiente
A proteção dos trabalhadores envolvidos nas aplicações de defensivos deve ser alvo de atenção dos responsáveis pela assistência técnica nas propriedades rurais, não só pelo fornecimento de equipamentos de proteção individual (EPI), mas, principalmente, pela correta orientação no manuseio dos produtos. Os encarregados do preparo das caldas devem trabalhar sempre de costas para o vento, para que eventuais partículas de pó, gotículas ou vapores não sejam dirigidos para o seu corpo. Por algumas décadas, a cultura do arroz irrigado utilizou a técnica de aplicação do herbicida molinate por gotejamento na lâmina de água. Doses ao redor de seis litros por hectare eram freqüentemente "arredondadas" para uma embalagem de vinte litros em três hectares, o que resultava num incremento da ordem de 11%, considerada normal naquela época. Hoje não se aceitam estas variações nas quantidades dos agroquímicos, devido ao fator custo e ambiental. A exigência de alta precisão dos equipamentos aplicadores torna possível distribuir em cada hectare de lavoura de arroz quantidades muito pequenas como 200 g do fungicida tricyclazole, 30 ml do inseticida betaciflutrina e apenas 3,3 g do herbicida metsulfuron, com uniformidade surpreendente, assegurando o adequado controle dos problemas fitossanitários da cultura. A tecnologia de aplicação aérea continuará evoluindo, cada vez mais buscando menor custo e maior segurança ambiental, de modo que a cultura do arroz gere alimento saudável e assegure rentabilidade ao agricultor.